Quinta-feira, Dezembro 02, 2010
ANA MARIA
15 de Março de 1979 - O CASAMENTO
Magnífica no seu vestido branco, Ana Maria entrou na igreja pelo braço do pai que a conduziu até ao altar deixando-a ao lado do homem que a partir daquele dia passaria a ser seu marido. Com a cabeça povoada de sonhos, a sua face, através da transparência do véu, deixava antever a imensa felicidade que a invadia naquele momento. A seu lado estava aquele que ela considerava o seu principe encantado, o homem com quem a partir daquele dia iria partilhar a casa, a cama, o corpo e a vida. Ali, aos pés do altar, perante o padre, os convidados e principalmente perante Deus, iriam ambos prometer que se amariam para sempre, que seriam fiéis um ao outro e que se manteriam unidos nos momentos felizes e nas adversidades até ao fim dos seus dias. Ana Maria iria afirmá-lo convictamente dentro em pouco e acreditava que o noivo o iria fazer também.
Como acontece com quase todas as noivas, Ana Maria estava a viver o momento mais feliz da sua vida. Amava profundamente aquele homem que sairia daquela igreja como seu esposo e não conseguiu evitar que uma lágrima rebelde lhe rolasse pela face quando o ouviu pronunciar o sim de forma bem audível. Não tinha naquele momento qualquer dúvida que ele a iria fazer muito feliz. Com ele iria partilhar a partir daquela noite, a sua intimidade, seria ele o pai dos seus filhos, o companheiro fiel e dedicado, o amante devotado e marido extremoso. Foi com esta certeza que pronunciou, sem hesitar, o sim que os iria unir para sempre. A diferença de idades, ela era quinze anos mais nova, nunca a preocupou, tão certa que estava que a experiência do marido seria para ela uma garantia de segurança. Com ele a seu lado sentia-se confiante. O futuro sorria-lhe.
Terminada a cerimónia, saíu da igreja com um sorriso tão radioso que não deixava dúvidas a ninguém que ela se sentia nesse momento a mulher mais feliz do mundo. Agora esperava ansiosamente que a noite chegasse depressa para finalmente iniciar a sua lua de mel, que antevia longa e maravilhosa.
…
Vinte e dois anos mais tarde…
Enquanto o sol desce lentamente e prepara o mergulho nas águas oceânicas, o extenso areal da Praia Grande vai ficando praticamente deserto de banhistas que, apesar da temperatura amena que se faz agora sentir depois de um dia de calor escaldante, vão debandando à medida que os ponteiros do relógio avançam para a hora de jantar. Apenas alguns resistentes optam por usufruir de mais alguns momentos da tranquilidade e do prazer de um final de tarde esplêndido e simulâneamente admirar um pôr-do-sol verdadeiramente majestoso.
O astro-rei, depois de na sua caminhada para o ocaso ter incendiado o céu, vai agora dourando o oceano onde dentro de alguns minutos mergulhará serenamente para dar lugar à penumbra que por sua vez anuncia a aproximação da noite. Para poder desfrutar melhor do encanto desses momentos mágicos ergue-se da areia o corpo escultural de uma mulher que, se dirige calmamente para a beira-mar, onde ficou imóvel a contemplar um dos mais soberbos espectáculo que a natureza é capaz de nos oferecer. Aquela silhueta elegante desenhada em contra-luz no fundo alaranjado de um céu em fogo, torna o quadro ainda mais deslumbrante congregando em si, após o sol ter desaparecido no mar, os olhares dos poucos banhistas que ainda se mantinham na praia.
Aquela mulher estupenda manteve-se quieta e contemplativa até a enorme bola de fogo desaparecer no horizonte, para depois iniciar uma caminhada descontraída ao longo do areal, aproveitando, aqui e além, para mergulhar nas ondas hoje menos frias do que é habitual nesta praia. Ana Maria, pois é dela aquela silhueta esbelta que passeia pela praia, entrou já na casa dos 40 e é agora uma mulher madura no auge dos seus atributos físicos e mentais, emocionalmente estável, detentora de uma auto-estima notável, experiente, esclarecida e segura de si. Divorciada há 12 anos após um casamento atribulado, recheado de mentiras e infidelidades, vitíma de constantes agressões psicológicas, chegou mesmo a sentir no corpo a dor da violência física. Aconteceu apenas uma vez, a primeira e única vez, porque no dia seguinte a ter sido agredida, pegou no filho, fez as malas e foi para casa dos pais. Hoje considera que as bofetadas que então tanto a magoaram, mais anímica do que físicamente, foram uma das melhores coisas que lhe podiam ter acontecido na vida, pois fizeram-na abrir os olhos, ter um assomo de coragem e dignidade e de uma vez por todas encerrar um capítulo negro da sua vida.
No extremo da praia, junto às arribas talhadas a pique sobre um recanto escondido do areal, completamente só e com a penumbra da noite adensar-se cada vez mais, sentou-se na areia e deixou que as ondas, amansadas pela maré baixa, lhe acariciassem os pés. Ana Maria é agora uma mulher feliz, confiante e realizada. Quando o filho entrou na faculdade entrou com ele e completou o curso que o casamento, que antevia de sonho, interrompeu. Terminaram ambos, no mesmo ano e na mesma faculdade, o curso de direito, e foi com ele que participou na cerimónia da benção das fitas. Hoje trabalham ambos, em sociedade, no seu próprio escritório de advogados, tendo Ana Maria um interesse especial pelos casos de violência doméstica. Está sempre pronta para ajudar as mulheres que, como ela, encontraram um monstro em vez de um marido. Foram muitas já as mulheres que recuperaram a liberdade com a sua ajuda, mulheres para quem a vida voltou a sorrir e o futuro se passou a apresentar mais luminoso.
Enquanto as ondas ao espraiarem-se na praia lhe acariciavam o pés, Ana Maria sorria para si, ao relembrar muitos desses casos em que ajudou a devolver a vida e a alegria e vntade de viver a tantas mulheres que recorreram a ela para cortar as amarras que as prendiam a uma vida de humilhação, insultos e violência. Nem todos os casos foram fáceis de resolver e nem todos o foram pacificamente, tendo ela própria sido alvo algumas vezes de ameaças que longe de a amedrontarem mais ânimo e mais força lhe transmitiam para continuar a sua cruzada em prol da dignidade da mulher.
A noite caira quase por completo sobre a praia e Ana Maria decidiu regressar a casa. Sentia-se bem consigo própria, com a natureza e com o mundo. Essa tarde na praia, precisamente no dia em prefaziam 22 anos da data do seu casamento fracassado, a advogada meditou longamente no que foi a sua vida desde essa data até agora. Pela sua mente passaram as ilusões e as fantasias que precederam o casamento, a magia da cerimónia, a felicidade dos primeiros tempos e o inferno que se lhe seguiu. Pensou no que teria sido, e o que seria hoje a sua vida se não tivesse casado com aquele homem, e que vida teria hoje se 12 anos mais tarde não o tivesse abandonado. Na impossiblidade de obter respostas para estas perguntas optou antes por se debruçar sobre os últimos dez anos da sua vida e aí sim, concluiu que foram os melhores da sua vida, a par dos tempos felizes da meninice. Hoje é uma mulher realizada. Criou o seu filho, concluiu o seu curso, tem uma actividade que a preenche e a satisfaz e apesar de nunca mais ter casado, não desistiu de ser mulher em todas as suas potencialidades: intelectual, espiritual e física. Estava emocionalmente eufórica quando entrou no carro. Pegou no telemóvel e marcou um número:
- Estás disponível agora? –
. Sim, estou, porquê?
- Estou a convidar-te para jantarmos juntos. Vem ter comigo à Taverna dos Trovadores. Apetece-me comer bem e ouvir boa música em boa companhia. Estou lá em vinte minutos.
- Vou já a caminho. E depois?
- Depois? Sabes que dia é hoje?
- Sim é sexta-feira.
- Dia?
- 15 de Março, se não estou enganado.
- Precisamente. Há 22 anos tive a minha primeira lua de mel que, como sabes, depressa se transformou em lua de fel.
- E?
- Não te faças de parvo. Sabes bem o que quero dizer.
- Percebi. Na tua cama ou na minha?
- Faz diferença?
- Claro que não. Eu chego à Taverna primeiro que tu.
- Vem devagar que eu preciso de ti inteiro.
FIM ( Ou talvez não)
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)
2 comentários:
Olá Gui
Li atentamente o teu texto. Algo me tocou,passagens em que me espelhei nele...
Por vezes a vida parece acabada e sem rumo e no entanto há tanto para viver e tanto para acontecer.
Gostei...Há muito não te lia e foi bom.
Obrigada pela visita
Bom fim de semana
bjgrande do Lago
...Ana Maria soube bem
administrar as mazelas
da vida, não se deixou
abater, cuidou da alma
e do corpo, e hoje,
madura e consciente
do que ainda quer,
colhe os frutos da
sábia decisão.
adorei sua visita...
amei estar aqui e deixo
bjs brasileiros à você!
Enviar um comentário