Ao ver-me estacionar junto a ela a rapariga levantou-se, aproximou-se cautelosamente e perguntou-me:
- Está interessado?
-Interessado em quê? – fiz-me de ingénuo.
- Sabe perfeitamento do que estou a falar. Está interessado em sexo?
- O que faz uma rapariga com o teu aspecto, aqui na berma da estrada? – perguntei--lhe.
- Acho que já lhe respondi. Vendo-me – disse-me tristemente.
- Entra – disse-lhe enquanto abria a porta do carro.
Ela entrou, sentou-se a meu lado e disse:
- O meu nome é Alice. É o meu nome de guerra, digamos assim. Não é o meu nome verdadeiro.
- Calculei – retorqui eu.
- Não quer saber quanto levo? – estranhou.
- Não. Também não sei o que quero de ti. Para já, conversar um pouco. Mas descansa que eu pago.
- Já me disseram que há homens que nos pagam apenas para conversar, mas ainda não me tinha calhado nenhum.
- Antes de tudo, uma pergunta. O teu chulo? – quis eu saber.
- Não tenho chulo. Eles bem andam à minha volta, mas eu não quero. Dizem que me defendem, mas pelo que sei o que eles defendem é o dinheiro que nos tiram. Algumas raparigas queixam-se que eles lhes ficam com o dinheiro todo e lhes batem ainda por cima.
-Não sabias isso quando abraçaste esta vida? Toda a gente sabe.
- Sabia o que geralmente se diz por aí. Mas a realidade é muito pior.
- Eles não te pressionam? Deixam-te à vontade?
- Isso queria eu, mas não me largam. Houve um que já me roubou o dinheiro que tinha e oferecem-me pancada se eu não alinhar. Mas eu não cedo. Não trabalho para chulos.
- E como vais continuar a resistir?
- Não tenho intenção de andar por aqui durante muito tempo. Vim aqui parar num periodo muito difícil que atravessei na minha vida e que não tive força, nem coragem, para ultrapassar com dignidade. Tenho vergonha do que faço e não quero continuar aqui.
- Bem, vamos arrancar daqui. Não é o melhor local para conversarmos. Podes tirar o dia para mim? Eu pago todo o tempo que perderes comigo.
- E não quer mais nada de mim a não ser conversa?
- Poderia dizer-te que não, mas tu é bonita e és apetecível, isso não posso negar. Não sei. Veremos.
- Foi para lhe oferecer sexo que o abordei. Se quiser, não se acanhe. Para onde me leva?
- Que tal almoçar? Que dizes?
- Não posso pagar restaurantes caros.
- Não te preocupes, as despesas ficam todas por minha conta.
- É um homem endinheirado?
- Interessa?
- Nada. Estou a gostar de falar consigo.
- Também estou a gostar de conversar contigo, e agora respondendo à tua pergunta digo-te que vivo desafogadamente.
- Se a sua mulher sonha que parou na estrada para apanhar uma prostituta, não vai ficar nada contente.
- Não ficaria certamente se, por acaso, eu tivesse mulher.
- Ah! Então é solteiro?
- Divorciado.
- Já alguma vez recorreu a prostitutas? Não estou a falar destas da estrada como eu, mas, digamos, acompanhantes de luxo?
- Não. Nunca precisei.
- Compreende-se perfeitamente.
- Como?
- Um homem como você pode ter as mulheres que quiser. Não precisa de recorrer a mulheres como eu.
- Como podes fazer uma afirmação dessas, tu não me conheces?
- Está à vista. É um homem lindo, educado, cavalheiro, vive desafogadamente, segundo disse. Que precisa mais para ter todas as mulheres a seus pés?
- Tu também?
- Eu deixei de ser uma mulher como as outras, sou uma puta, desculpe a palavra. A mim qualquer um pode ter.
Entretanto chegámos às imediações do Guincho. Estacionei o carro e ficámos uns momentos em silêncio a contemplar o oceano. Estranhamente estava a saber-me bem a companhia daquela mulher desconhecida, que enveredara por “profissão” que a marginalizava do convívio das pessoas ditas sérias. Estava curioso em saber o que levara aquela rapariga educada, a trilhar o caminho da lama.
- O que te trouxe para esta vida?
- É uma história longa e complicada. Mas não é da vida que tenho que me queixar, mas de mim própria.
- Algo de muito grave se deve ter passado contigo, para dares o passo que deste.
- Passou, mas não justifica a vida que levo. Há muita gente que, passando por problemas semelhantes, ou piores, enfrentam as dificuldades, vão à luta, caem e voltam a levantar-se até conseguirem vencer. Eu não tive coragem para reagir ao primeiro tropeção. Indicaram-me um caminho que eu repudiei a princípio, mas que aos poucos começou a afigurar-se-me como o único possível. Estava a querer enganar-me. Não era o único possível, seria talvez a opção mais fácil. Era o caminho mais fácil de alcançar, mas é, inquestionavelmente, o mais difícil de percorrer. Estou a senti-lo na pele.
- Alice, vamos almoçar. Depois vamos passear no areal e contas-me a tua história. Concordas? Durante o almoço falaremos de nós, dos nossos gostos, dos nossos hobbies, enfim de tudo aquilo que nos seja agradável recordar. Ah! O meu nome é Carlos, desculpa por não me ter ainda apresentado.
- Nem tinha que o fazer. Obrigado pela atenção. Pode tratar-me por Raquel, é esse o meu nome verdadeiro.
Levei a Raquel para um dos restaurantes da zona, situados frente ao mar. Ela hesitou antes de entrar
.
- Carlos, este não é sítio para mim. Não é local para pros…
- Chiu! É local para gente que tem dinheiro para pagar. As chamadas prostitutas não vêm aqui é verdade, mas putas, e muito grandes, encontram-se aqui aos magotes. Essas não se vendem por 40 ou 50 euros à beira da estrada, mas vendem-se em troca de luxo, festas, casacos de astracam, apartamentos ou automóveis de de gama alta. Em que é que elas são melhores do que tu? Mais ricas, apenas.
Um sorriso amargo transpareceu naos lábios daquela rapariga tão jovem e já tão maltratada pela vida. Comovi-me, e senti os olhos a humedeceram-se-me. Dei-lhe a mão, e delicadamente puxei-a para dentro. Pela face corriam-lhe duas lágrimas mais rebeldes que ela não conseguiu conter.
…
Depois de uma excelente açorda de marisco a Raquel parecia estar já um pouco mais descontraida e mais faladora, talvez fruto de um excelente Alvarinho com que regámos a refeição. Durante o almoço fiz questão de manter a conversa longe da actual situação da jovem. Falámos, de início, sobre aquele local magnífico em que nos encontrávamos, do vento que quase sempre sopra forte no Guincho, da magia da serra de Sintra ali bem perto, de cinema, de música e de livros. Em todos temas a jovem demonstrou grande à vontade, deixando a ideia de ser uma rapariga culta e bem informada. A desenvoltura com que abordou todos estes e outros assuntos, deixaram-me surpreendido e agradavelmente impressionado e aumentaram a minha curiosidade em saber sobre o que levou aquela mulher para a beira da estrada. Durante o café falei-lhe de sonhos, dos sonhos que ela certamente terá tido e daqueles que ainda acalentará, se é que na cabeça de uma mulher “da vida” pode ainda haver lugar para sonhos. De chofre questionei-a:
- Raquel, o que esperas do futuro?
- Já esperei tudo. Agora não espero nada. Entrei num caminho sem regresso e que termina numa lixeira fedorenta. É esse o futuro que me espera.
- E tu, não tens voto na matéria? Não acreditas que podes mudar o teu destino? Não há caminhos de sentido único, minha amiga, podes sempre dar meia volta e voltar para trás. Normalmente a viagem de regresso é mais difícil. O cansaço da caminhada já feita deixou-te certamente debilitada e torna a viagem de regresso mais penosa, mas a força de vontade permitir-te-á ultrapassar as dificuldades. Assim tu queiras.
- É o que mais quero na vida.
- O que te impede, então?
- O dinheiro avilta-nos, Carlos. Destrói-nos até a própria dignidade. Habituamo-nos a ele e fazemos tudo para que ele não nos falte. Queremos cada vez mais. O dinheiro abandalha-nos.
- Nalguns casos talvez, mas o inferno não é o dinheiro, mas a ganância.
- Tem razão.
-Bem, vamos continuar a nossa conversa ao ar livre a inalar o cheiro agradável da maresia e sentir o vento a soprar-nos na face e a refrescar-nos as ideias.
- Vamos então. Obrigado por este almoço maravilhoso, num local demasiado bom para mim. Durante cerca de hora e meia voltei a sentir-me uma pessoa e não calcula como isso me fez bem. – respondeu ela com os olhos marejados de lágrimas uma vez mais.
A tarde ensolarada mas ligeiramente fresca, o areal quase deserto, o vento forte, o som das ondas em fúria a rebentar na praia e um intenso cheiro a mar constituiam o cenário perfeito para a conversa que eu queria ter com ela. Queria aproveitar de ter naquele momento, à minha frente a Raquel, e não a Alice, porque era a Raquel que me interessava, e estava disposto a fazer tudo para fazer desaparecer a Alice. Senti que a Raquel ainda podia ser salva e eu estava disposta a ajuda-la. Alta, elegante, olhos negros rasgados e cabelos pretos lisos a cair-lhe pelas costas, Raquel era uma mulher bonita e sedutora a quem a vida que levava ainda não tinha produzido os efeitos devastadores que obrigatóriamente provoca. Curioso perguntei:
- Raquel, há quanto tempo andas nesta vida?
- Há muito…há muito tempo. Vai fazer três meses.
- Muito tempo, dizes tu? Três meses é muito tempo para ti?
- É uma vida inteira, Carlos. Uma vida inteira.
- Julgo que te entendo, mas queres explicar melhor?
- Um dia só que seja, nesta vida, representa uma vida inteira. Por muitos anos que se viva, e mesmo que se consiga abandonar a prostituição, esse tempo, esses meses ou apenas esse dia deixará para sempre um estigma na nossa alma, uma marca de vergonha que nos impedirá de vivermos de cabeça levantada, de olharmos os outros de frente, olhos nos olhos. Um dia surgirá alguém ou alguma coisa que porá a descoberto o nosso passado e a fazer desmoronar as nossas ilusões de vivermos uma vida normal.
Arripiei-me ao ouvir estas palavras ditas com convicção por uma mulher jovem ainda, com uma vida inteira pela frente, vida da qual ela parecia ter desistido já.
- É um quadro bastante negro aquele que estás a desenhar.
- É a realidade, Carlos.
- Só será, se tu quiseres. Concordo em parte com aquilo que acabaste de afirmar, mas não terá que ser obrigatoriamente assim. Só podes recomeçares a tua vida com base na lealdade e na verdade. O futuro não pode ser construído assente numa mentira. Se pretenderes iniciar relação séria, não podes esconder nada à pessoa com quem te queres relacionar. Se ele gostar de ti de verdade, de certeza que desvalorizará o passado e olhará apenas para o futuro. Se não o fizer, se sentires qualquer reserva não vale a pena continuar porque as possibilidades de resultar e seres feliz serão muito escassas. Tens que ser forte, determinada e prudente, muito prudente. Se te aconselho a não esconderes o teu passado numa eventual relação amorosa também te alerto para o perigo de alguém, conhecendo-o, pretenda apenas servir-se de ti. Se permitires que isso aconteça todo o teu esforço de reconversão de vida se demoronará. Não deixes nunca que isso aconteça, que ninguém se aproveite de ti e desrespeite.
- Sinto nas suas palavras…
- Olha Raquel, podes tratar-me por tu. Tornará mais fácil a conversa que quero ter contigo, que por abordar um tema delicado tem que decorrer num clima de cumplicidade para estarmos ambos mais à vontade e menos formais.
- Concordo contigo. Inspiras-me uma enorme confiança e estou na disposição de me abrir totalmente contigo e contar-te toda a minha vida. Agradeço a Deus por teres parado naquela estrada. Obrigado por me tratares como uma pessoa.
- Tu és uma pessoa, nunca te esqueças disso. Agora, senta-te aqui na areia, junto a mim a contemplar a grandeza deste mar imenso, hoje alteroso, e vamos deixar que a espuma das ondas nos acaricie a cara. Façamos um pouco de silêncio, meditemos um pouco e depois comecemos então a parte mais dolorosa da nossa conversa.
Durante longos minutos mantiveram-se em silêncio, olhos fixos, ora no horizonte longínquo, ora no mar revolto e nas ondas que se lançavam furiosas sobre a praia que as acalmava fazendo-as deslizar suavemente sobre o areal e deixando-se penetrar por elas antes que regressassem de novo ao mar. Carlos ao observar o vai vem das ondas e a sua cumplicidade com a praia recordou uma velha cantiga dos seus tempos de liceu e que dizia assim:
“O mar enrola na areia
Ninguém sabe o que diz
Rola na areia e desmaia
Porque se sente feliz.
Também o mar é casado,
Também o mar tem filhinhos,
É casado com a areia
E os filhos são os peixinhos.”
Não evitou um sorriso ao recordar este versos, sorriso que não passou despercebido a Alice que perguntou:
- Estás a rir de quê?
- Se te disser vais chamar-me maluco.
- Porque faria isso?
- Ao olhar o mar a estender-se sobre a praia recordei uma velha canção dos meus tempos de adolescente.
- E?
- É uma idiotice, não ligues.
- Agora quero saber. Contas-me?
Carlos trauteou as duas quadras, recordando-se perfeitamente da melodia.
- Sabes Carlos, também eu estava a observar a forma como as ondas beijam e penetram a areia e pareceu-me perceber uma certa dose de sensualidade nesta relação do mar com a praia. Claro que a sensualidade não está no mar, nem na praia, mas em nós, na nossa cabeça e nos nossos sentidos.
- Estavas também a pensar nisso?
- Sim. Já reparaste como as ondas ao tocar a areia esquecem a sua “fúria” e se estendem sobre ela e a penetram com tanta suavidade deixando à superfície um manto de espuma delicada, como que um lençol diáfono estendido sobre o leito a esconder, ou antes, a enfeitar esta “intimidade” que a natureza lhes impôs desde que o mundo é mundo? Mas esquece, é uma patetice resultado, talvez, da minha antiga apetência para o romantismo e para o romance..
- Antiga?
- Sim, antiga. A vida que abracei destrói tudo o que de bom possa existir numa mulher e consequentemente também o romantismo e romance é coisa que anda bem longe daquilo que faço.
- Mas voltando ao mar e à praia, estavamos em sintonia de pensamento e foi isso que me fez recordar a velha canção. Tens razão quando afirmas que a sensualidade está latente dentro de nós e não na praia ou no mar ou em qualquer outro elemento da natureza. Elas podem sim ajudar a despertá-la mas nós temos é que ter a capacidade de a alimentar qualquer que seja o pretexto e para esse efeito qualquer pretexto é bom.
- Parece que o cheiro intenso a maresia que nos invade está a dar-nos a volta à cabeça e perturbar-nos os sentidos, não achas?
- Não, sinceramente não acho. Tudo o que possa depertar a nossa sensualidade não perturba nada, apenas nos ajuda a descobrir que estamos vivos por muito mal que a vida nos trate..
- Seja. Ès capaz de ter razão.
Mais um curto silêncio, a inspiração longa e profunda do ar marítimo e Carlos virou-se para Alice e desafiou-a:
- Estás pronta para começar?
A rapariga inquietou-se e uma sombra de tristeza toldou-lhe a face. Carlos notou-lhe a perturbação.
- Se não queres falar, não fales. Se não te sentes confortável a falar da tua vida, não sou eu que te vou obrigar a fazê-lo. De modo nenhum eu quereria perturbar a magia deste momento que ambos estamos a viver.
- Desculpa, meu amigo. Estou efectivamente a viver momentos tão mágicos e agradáveis que por nada deste mundo gostaria de estragar. Não sei se alguma vez mais vou ter a oportunidade de me voltar a sentir assim tão bem, de me voltar a sentir uma pessoa respeitada como está agora a acontecer. Terás sempre a minha gratidão por esta tarde maravilhosa que me estás a proporcionar, mesmo que nunca mais nos vejamos o que é o mais provável.
- Então esquece e prolonguemos por mais uns instantes estes momentos agradáveis que ambos estamos a viver. Acredita que também para mim esta está a ser uma tarde inesperada e inexplicavelmente mágica.
- Obrigado por seres tão compreensivo. Se for da tua vontade voltaremos a ver-nos, onde e quando quiseres e então contar-te-ei toda a minha história sem omitir o mínimo pormenor.
- Tens algum compromisso marcado para esta noite?
- Esta noite?
- Sim. Estou a convidar-te para ires jantar comigo a minha casa. Eu telefono à minha empregada e ela prepara o jantar para nós os dois. Depois, ao serão, falaremos das nossas vidas. Que achas?
- Estás a ser demasiado bondoso comigo. Eu nem poso acreditar que isto me está a acontecer.
- Vens jantar comigo?
- Com todo o prazer. Não sei como te agradecer.
- Mas eu sei.
O olhar da rapariga entristeceu ligeiramente. Temia as palavras que provavelmente se seguiriam e que decerto ensombrariam o encantamento que estava a viver.
- Sabes? Diz-me como e eu farei o quiseres.
- Quero que voltes a ser feliz e que deixes essa vida.
- Já te disse que é aquilo que mais desejo mas entrar neste caminho é fácil como sabes mas sair é bastante mais complicado.
- Eu vou ajudar-te. Eu sei que posso ajudar-te e sei como o poderei fazer. Só preciso que tu queiras e que faças também a tua parte.
- Diz-me como me poderás ajudar. Qual é a tua ideia?
- Por agora é segredo. Logo à noite esclarecer-te-ei sobre o meu plano.
- Conheceste-me há umas horas, nas circuntâcias que ambos sabemos, e já tens um plano para mim?
- Sou um homem prático Alice. Prático e decidido. Mas agora levanta-te e vamos caminhar praia fora para continuar a lavar os pulmões com ar puro.
Carlos pegou no telemóvel, ligou para casa e disse à empregada:
- Júlia, hoje vou ter visitas. Faz jantar para duas pessoas para as 8 horas. Gostava que caprichasses porque vou levar comigo uma pessoa muito especial.
Guardou o telefone, ajudou Alice a levantar-se e de mãos dadas iniciaram um longo passeio pela praia.
…
Já passava das 7 horas da tarde quando Carlos estacionou o seu BMW à porta de casa, uma ampla moradia de estilo antigo rodeada por um jardim amplo e bem cuidado, com uma garagem para três carros e um anexo que ele transformou num espaço com condições de habitabilidade. Alice olhou para o companheiro com um olhar interrogativo.
- Sim, é esta a minha casa – esclareceu-a com um sorriso.
- É linda, mas não sei se deva entrar. Não te esqueças quem eu sou e o que faço.
- O que fzes não me interessa nada neste momento, interessa-me sim, e muito, quem tu és, e é isso que quero desobrir esta noite.
Carlos saiu do carro e cavalheirescamente abriu a porta e estendeu a mão para que Alice saisse também. A rapariga estava cada vez mais confusa e não queria acreditar no que lhe estava a acontecer. Situações como aquela só lhe aconteciam em sonhos, quando ainda ousava e era capaz de sonhar.
- Anda, o jantar deve estar já à nossa espera.
Entraram em casa. Raquel ficou impressionada com o bom gosto com que a casa estava decorada. Havia requinte, embora sem ostentação.
- Gostas? – perguntou Carlos
- É linda. Deve ser muito agradável viver aqui.
- Já foi. Hoje há solidão a mais dentro destas paredes. Há demasiado silêncio.
- Mas o silêncio não é bom? Eu sinto necessidade dele.
- O silêncio é importante, é verdade, é mesmo fundamental quando estou a trabalhar, mas terminado o trabalho faltam o convívio, as conversas, alguém com que possamos trocar opiniões e a quem possamos contar como correu o nosso dia.
- Não houve filhos do teu casamento?
- Não.
- Estive casado três anos apenas, mas parece que o meu trabalho era um óbice para o sucesso do casamento.
- Porquê?
Ainda não te disse, mas eu ou editor literário e livreiro ao mesmo tempo, e ainda tenho pretensões a ser escritor. É uma vida demasiado pacata para quem sonhava apenas com festas e o pretenso glamour do jet-set. Não faz o meu estilo e também não tinha tempo para perder nesse tipo de eventos que mais não são do que uma montra de vaidades.
- Foi por isso que se divorciaram?
- Fundamentalmente sim. Nunca a impedi de ir a essas festas embora não a acompanhasse. O desfecho era previsível. Encontrou aí um homem mais encantador do que eu, também mais rico e mais fútil também. Tinha uma profissão bem mais interessante para ela do que a minha, herdeiro de uma fortuna, que lhe dava um trabalhão a esbanjar. Ela não se importou nada de o ajudar nessa difícil tarefa.
- Estás a ser sarcástico.
- Um pouco, talvez. Mas não estou a exagerar.
-Olha a Júlia está a chamar-nos para jantar. Vamos. Continuamos a conversa à mesa. Gostas de bacalhau com natas?
- Gosto muito.
- Então vamos a ele.
Comeram em silêncio durante uns minutos, até que Alice retomou a conversa no ponto em que tinha sido interrompida.
- Era bonita a tua ex-mulher?
- Muito. Loira, elegante, sofisticada e pouco ou nada interessada no meu trabalho que ela considerava maçador.
- E os filhos não vieram, porque…
- Porque ela tinha medo que a gravidez que prejudicasse a “linha”, e porque não chava elegante ir grávida para as festas de que ela não prescindia.
- E foi então assim que terminou o teu casamento.
- Foi. Ela fez as malas, foi ter com o herdeiro rico e eu fiquei só, mas para falar verdade não fiquei menos feliz. Apenas o silêncio em excesso me incomoda.
- Foi um divórcio difícil?
- Nada. Ela queria ver-se livre de mim e eu não me importava nada que ela saisse da minha vida. Graças a Deus não havia filhos o que tornou a separação muito mais fácil.
- Tens tido contacto com ela?
- Não. Eu tenho o meu trabalho de editar, vender e escrever livros, o que gosto muito de fazer e ela tem o seu trabalho de ajudar a derreter uma fortuna imensa, o que também lhe deve dar um gozo tremendo.
- Isso aconteceu quando?
- O divórcio? Há 5 anos.
- E não quiseste voltar a casar.
- Não. Estou casado com os livros.
- E…
- Sexo? Queres saber se tenho alguém?
- Se não achares indelicado da minha parte…
- Claro que tenho alguém com quem me encontro frequentemente sem qualquer tipo de compromisso de qualquer das partes. Juntamo-nos quando nos apetece e depois cada um vai à sua vida e até à próxima vez.
- E isso chega-te?
- Não. Claro que não.
- Então porque não arranjas uma companheira que esteja dáriamente a teu lado, com ou sem casamento?
- Não apareceu ainda nenhuma que se identificasse comigo, que gostasse do que eu gosto, que pense como eu penso.
- Meu Deus! Não estarás a ser demasiado exigente. Tu queres uma tampa que esteja justamente à medida da tua panela.
- E não é isso que é preciso?
- Quando falamos de tachos e panelas, sim, mas quando estamos a falar de pessoas, não me parece que seja fundamental e duvido até que seja aconselhável A concordância completa parece-me que é inevitavelmente castradora. É com as nossas diferenças que aprendemos a ser compreensivos e tolerantes. É com elas que promovemos a troca de opiniões, isto é, a discussão saudável.
- Então que sugeres para que uma relação resulte na perfeição?
- Respeito, em primeiro lugar. Compreensão e tolerância também costumam dar muito jeito.
- Queres dizer que…
- A unicidade de gostos e de opiniões não são garantia de felicidade. Não procures a tua alma gémea procura antes alguém que te ame o suficiente para harmonizar a diferenças.
- Bem, até agora falámos apenas de mim, é altura de falarmos agora sobre ti.
- Chegou o momento que mais temi, por ser aquele que mais me magoa, mas vou falar-te com toda a sinceridade. Vou despir-me completamente para ti, não o corpo que isso estou já habituada a fazer, mas a alma e essa será talvez a primeira vez que o vou fazer.
- Conta de uma assentada. Não te irei interromper.
- Sou transmontana e nasci no seio de uma família honrada e feliz na zona de Bragança. Não era uma família abastada mas vivia desafogadamente. Tive uma infância feliz, não me faltou nunca o pão, nem carinho, nem amor. A minha mãe era, e é modista e o meu pai, empregado bancário. Fiz a escola sempre com boas notas e terminei o 12º ano com média de 18,7 valores. Entrei na faculdade de medicina em Lisboa onde onde fiquei alojada, em casa de uns primos do meu pai. O 1º e o 2º anos correram bem, passei com boas classificações mas no 3º ano tudo se complicou. Os primos do meu pai reformaram-se e regressaram a Trás-os Montes. Vi-me na emergência de regressar a casa porque não tinha dinheiro para alugar um apartamento. Consegui dividir uma casa com duas colegas da faculdade e pagar um terço da renda. O dinheiro que os meus pais me mandavam ainda ia chegando para fazer face a essa despesa. O pior foi quando, meses depois o meu pai saiu de casa embeiçado por uma colega do banco, foi viver com ela e deixou de me enviar a mesada. A minha mãe não ganhava o suficiente para me ajudar a fazer face à despesa da minha estadia em Lisboa. Pensei em arranjar trabalho e estudar à noite, mas não foi fácil conseguir trabalho a não ser nas limpezas. Desesperada pensei seriamente em aceitar esse trabalho. Foi então que uma das minha colegas de apartamento me disse:
- Trabalhar nas limpezas e ganhar uma miséria? Não vás nessa, segue antes o meu conselho e terá os teus problemas de dinheiro resolvidos.
- Como é que consigo esse milagre?
- Sais comigo uns dias durante umas horas e vais como o “milagre” se concretiza.
- E que trabalho é esse tão compensador? Eu nunca trabalhei, não sei fazer nada além de estudar.
- Já ouviste em falar em “vender” o corpo? Com o corpinho que tens ganhas o dinheiro que queres.
Fiquei horrorizada, mandei-a calar-se e virei-lhe as costas. Nunca faria uma coisa dessas. Entretanto as dificuldades avolumavam-se e eu aceitei mesmo trabalho de limpeza. Trabalhei 3 meses, nunca tinha feito esse trabalho, não era suficientemente eficaz e despachada e acabei por ser despedida e com dois meses de salário que não me pagaram. Desesperada cheguei a casa e desatei a chorar. A minha colega que me propôs a prostituição como solução para os meus problemas, vendo-me fragilizada voltou a insistir na sua sugestão. Voltei a recusar mas perante a insistência ao fim de um mês estava à beira da estrada. Continuo a estudar, falto a algumas aulas, algumas cadeiras irão ficar para trás, tenho dinheiro suficiente para fazer face às despesas, e só trabalho o mínimo indispensável para conseguir uma determinada verba diária que me garanta o desafogo financeiro. Vivo amargurada e tenho nojo de mim, como facilmente entenderás.
- E… - interrompeu Carlos
- E… um dia um BMW conduzido por um cavalheiro parou junto a mim na berma da estrada. O condutor não quis o meu corpo para nada, e proporcionou-me um dia que nunca esquecerei.
- Um dia que será uma viragem na tua vida. Um dia que te vai devolver a dignidade que julgas perdida para sempre.
- E como é que isso irá acontecer?
- Disse-te que te iria ajudar se tu quiseres aceitar a ajuda. Queres mudar de vida?
- Já te disse que sim, que é o que mais desejo actualmente.
- Então tenho uma proposta para te fazer. Ouve com atenção.
- Sim, estou a ouvir.
- Já te disse que sou proprietário de uma editora de livros e de uma livraria. Como calculas tenho muito trabalho, principalmente na editora. Tenho rimas de projectos de livros sobre a secretária à espera de serem lidos, apreciados e aprovados, ou não, para publicação. Não tenho tempo para pesquisar material e informação para os meus próprios livros. Já vi que és uma rapariga culta e podias ajudar-me nessa tarefa. Sabes línguas?
- Domino bem o inglês e o francês.
- Preciso também de alguns trabalhos de tradução. Vais fazer-me muito jeito.
- Estás então a propor-me…
- Que sejas minha assistente. Tenho um anexo no jardim, perfeitamente habitável. Tem três casas assoalhadas, casa de banho e cozinha. Se aceitares podes mudar-te para lá sem pagares qualquer renda. Assim tenho-te por perto para me ajudares sempre que precisar. Continuarás a frequentar o teu curso de medicina, com as propinas pagas por mim, e terás toda a privacidade na tua casa e o tempo que precisares para estudar. Se tiveres tempo ajudar-me-ás também a ler a apreciar alguns dos projectos que aguardam uma decisão quanto a serem publicados ou não. Há ali muito lixo, mas há também algumas coisas boas. Que dizes?
- Quando começo?
- Quando quiseres. Amanhã podes começar a mudar-te para aqui.
- Obrigado Carlos. Não sei como te agradecer.
- Não tens que me agradecer, só preciso que me ajudes, mas não perguntaste quanto vais ganhar?
- Quanto vou ganhar? Já ganhei. Estás a dar-me a possibilidade de recuperar a vida e a dignidade que perdi por culpa própria. Estás a oferecer-me um abrigo e um trabalho que considero fascinante, estás a dar-me a tua amizade e vais dar-me ainda a possibilidade de concluir o meu curso, que mais havia eu de querer? Espero sinceramente estar à altura do desafio que me fazes. Estás a oferecer demasiado a uma pessoa que não conheces, que encontraste hoje à beira da estrada a vender o corpo. Tens acerteza que é isto que queres?
- Tenho. Talvez pela função que desempenho apurei um “feeling” especial para distinguir o lixo do ouro. Acredito que hoje encontrei ouro e que não me vais desiludir.
- Podes ter a certeza que não. Poderei não estar à altura das tarefas que me queres confiar, mas garanto-te que vou mudar de vida. Foste um anjo que me estendeu a mão…ou a asa, tanto faz, e eu vou agarrar-me a ela com todas as minhas forças.
- Estás mesmo decidida em mudar de vida? Desculpa a insistência, mas preciso de saber com segurança.
- Achas que eu iria desperdiçar esta oportunidade única de voltar a ser uma mulher séria e uma mulher a sério? Compreendo a tua preocupação, mas não fazes ideia do sofrimento que foram estes últimos 3 meses. Não sou tão estúpida que vá enjeitar esta oportunidade única que me estás a oferecer. Já fui estúpida suficiente em ter entrado naquela vida. Obrigado uma vez mais.
- Naquela vida, disseste tu. Gostei de ouvir. Essa expressão soou-me a música. Quer dizer que já estás numa outra.
O serão prolongou-se noite fora. Júlia terminado o trabalho regressou a casa e Raquel e Carlos ficaram sós. As horas correram céleres sem que eles se apercebessem, embrenhados que estavam nas suas confidências. Eram quase duas horas da manhã quando olharam para o relógio. Raquel sobressaltou-se. Era tardíssimo e estava longe de casa.
- Não te preocupes – sossegou-a Carlos - Vais ficar cá em casa esta noite. Há mais três quartos para além do meu, e vou preparar-te um deles para pernoitares aqui.
- Não te incomodes, eu chamo um táxi.
- Não chamas táxi nenhum. Dormes cá e pronto. Ficas à vontade sem que ninguém te incomode. Há cá em casa camisas de noite, ou pijamas que te devem servir.
- Vais pôr a dormir em tua casa uma pessoa que não conheces? Não tens medo que te roube e fuja durante a noite?
- Não, porque sei que não o farás.
- Não, não vou fazê-lo claro. Sou prostituta, não sou ladra nem mal agradecida.
- Eras prostituta até hoje de manhã, mas isso é passado. A partir do momento que aceitaste a minha oferta e decidiste mudar de vida, és uma mulher digna que deve ser respeitada. Vamos lá mostrar-te o quarto. Amanhã de manhã iremos ver a tua futura casa. Equipá-la-ei para que nada te falte lá.
- Nem sei que te dizer mais. Tenho medo que isto tudo não passe de um sonho, lindo mas apenas um sonho.
- Vá, vai dormir que o dia de hoje foi rico em emoções fortes. Vem comigo, eu levo-te ao quarto.…
Três anos mais tarde.
Raquel terminou finalmente o seu curso de medicina. Carlos publicou o seu melhor romance com a prestimosa e competente colaboração da sua dedicada colaboradora, e a montanha de propostas de trabalhos literários para publicar tinha descido imenso em cima da sua secretária.
Raquel não voltou para a estrada e é hoje uma mulher feliz. Está a cumprir o estágio num estabelecimento hospitalar, não mora já no pequeno anexo que Carlos lhe cedeu, e vive actualmente com o editor e romancista uma relação feliz. Não casaram por decisão dela, apesar dos insistentes pedidos do companheiro. Quer fazê-lo, mas só quando tiver a certeza que a mancha que ensombra o seu passado estará completamente diluída e que não irá afectar a dignidade daquele homem que lhe estendeu a mão e lhe devolveu a dignidade. Raquel e Carlos forma hoje um casal feliz , uma felicidade que se começou a construir há três anos atrás, à beira de uma estrada qualquer.
NOTA DO AUTOR:
Se alguém conseguiu ler esta despretenciosa história até ao fim deverá estar a agora a pensar que optei por um final piroso, previsível e completamente improvável. Uma situação destas dificilmente aconteceria na vida real. Escrevi esta historinha sem fazer ideia que final lhe iria dar. Iria ser realista e após um dia agradável acabariam os dois na cama e no dia seguinte tudo voltaria ao mesmo, ou iria transformar aquele homem num idealista e num filantropo, tipo Pigmaleão, que transformaria a prostituta numa dama, e mais ainda, em sua mulher. Demasiado cor-de-rosa não é? É verdade que sim. Decidi, como constactaram, pela “pirosice”. A vida actual já é demasiado cinzenta, triste e depressiva, porque não transformá-la em algo mais bonito, mais alegre e mais feliz. Hoje, o teclado do computador, como ontem, a caneta ou o lápis, dá-nos o poder de criar histórias felizes em contraponto com os governantes que só sabem espalhar a depressão, a revolta, a corrupção e a miséria à sua volta. Neste cenário umas pinceladas de cores alegres não fazem mal a ninguém. Por muito pirosas que sejam.

3 comentários:
Acredite, li até ao fim. O que é raro em mim. Depois de ter começado como podia parar de ler uma história tão naravilhosa. Perguntei-me muitas vezes: Será que foi o Guilherme que escreveu uma prosa tão bela?
Comoveu-me a sorte da Alice por ter encontrado um homem de tipo único com enorme coração e uma especial qualidade no que se refere à respeitabilidade. A grande maioria dos homens são absolutamente ao contrário do Carlos. Apetecia-me dizer muito mais mas não consigo porque o meu pescoço e as minhas costas me doem com intensidade devido à posição em frente ao computador.
Mais uma vez, acredite, foram uns minutos maravilhosos que me proporcionou!!! Obrigada.
Abraço
Adelaide
Piroso, ou não. A vida precisa de finais felizes como este.
Há muita nuvem negra no ar, há muito pó acumulado nas nossas vidas. Há muita sujidade agarrada aos nossos pés.
Um Pigmalião, ou melhor vários, é o que falta nesta vida.
Bravo! Parabens!
Meu querido Gui, só mesmo a tua mão de mestre. ADOREI.
Beijo imenso de luar
Amigo Gui!
Sempre a mesma sensibilidade nos seus belos contos.
Parabéns!
Feliz Natal!
Natal, Hoje!
Todos dizem com certeza
Absoluta,
Tocante e rasante
Que o Natal já não é
O que era dantes.
Perdeu o sentido
Ganhou mais cor;
Perdeu intimidade
Ganhou vermelho e Pai Natal;
Perdeu celebração de Jesus
Ganhou o incenso do tempo,
A mirra das vontades
E o ouro nas relações…
Todos os dizem
Mas eu, que sei?
2010
Maria José Areal~
Beijinhos
Ná
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