FILME EM DESTAQUE: “DOS HOMENS E DOS DEUSES”
REALIZADOR: Xavier Beauvois
INTÉRPRETES: Lambert Wilson, Michael Lonsdale; Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach
GÉNERO: Drama IDADE: M/12 anos /Filme de qualidade DURAÇÃO: 122 m
Já uma vez afirmei aqui que há filmes que são verdadeiras pérolas. Este “Dos Homens e dos Deuses”, é uma dessas raras preciosidades que o cinema nos oferece de quando em vez, e que não podemos de forma alguma deixar de ver. Há filmes que se vêem em sobressalto, outros com um sorriso no lábios, outros ainda com uma lágrima nos olhos e muitos com um longo bocejo, mas este só pode ser visto a rezar, uma vez que ele, só por si, é já uma oração. Uma lindíssima oração.
Margarida de Ataíde, no comentário que publicou sobre este filme no site da Agência Ecclésia classifica-o como uma extraordinária ode à Fé. Concordo totalmente. Vencedor do Festival de Cinema de Cannes deste ano, aplaudido longa, comovida e entusiasticamente no final da sua apresentação, este filme está proposto como candidato ao Óscar para o melhor filme estrangeiro. Se conquistará ou não esse troféu é um mistério que só se desvendará daqui a dois meses, mas acredito que dificilmente aperecerá um filme melhor.
A aldeia argelina de Thibirine na região do Magreb, cresceu em redor de um pequeno mosteiro que acolhe oito monges cisterienses franceses que, para além das suas obrigações monásticas e de trabalharem o seu sustento, prestam desinteressadamente um importante apoio à população muçulmana vizinha que os procura confiando-lhes a resolução de muitos dos seus problemas, quer sejam eles de saúde ou até mesmo de amor. A todos, os monges acolhem com carinho e amor fraterno, pondo-se incondicionalmente ao seu serviço, independentemente da diferença de culturas e de convicções religiosas. A presença ali daqueles monges é importante para a vida daquela aldeia e os seus habitantes já não sabem viver sem eles por perto. Esta comunidade dos monges de Cister existiu efectivamente naquela aldeia e era considerada e estimada pela população muçulmana que a habitava. Em 1996 porém, os extremistas do Grupo Islâmico Armado, começaram a espalhar a violência e o terror um pouco por todo o país elegendo como alvo preferencial as comunidades estrangeiras radicadas na Argèlia. Todos os dias surgem notícias de novos ataques e assassinatos cometidos por esses grupos radicais e o medo instala-se no seio das populações. Thibirine não foi excepção e a presença de um grupo terrorista nas imediações da aldeia gera insegurança e medo entre os aldeões e também entre os monges, que apesar da inquietação que os invade recusam a protecção do exército governamental. Vacilam entre o ficar ou fugir, depois de terem sido visitados, na Noite de Natal, por um grupo de rebeldes armados que pretendiam que os monges tratassem de alguns dos seus elementos feridos.
Homens de Fé profunda, fortalecidos pelo amor a Deus mas ao mesmo sujeitos às fraquezas próprias da sua condição humana, os monges sofrem a angústia do medo e as opiniões entre eles, dividem-se. Uns estão decididos a ficar em qualquer circunstâcia enquanto outros acham mais prudente abandonar o mosteiro e regressar a França. Deverão eles manter-se firmes no seu posto e continuar a desempenhar a sua missão até ao fim, sabendo de antemão que mais tarde ou mais cedo acabarão martirizados, ou será mais sensato abandonar a aldeia e o país, salvar as suas vidas e começar tudo de novo num local mais seguro? É esta dúvida que passou a amargurar o dia a dia dos oito monges que acabam por concordar em adiar uma decisão final e procurarem na oração a resposta às suas incertezas e aos seus temores. Cada um deles não consegue evitar que, no seu intimo, a coragem e o medo se enfrentem numa luta dura e intensa. O silêncio que os rodeia acaba por ser ensurdecedor, a angústia pressente-se em cada olhar e há mesmo quem chegue a vacilar na sua Fé. Os frades rezam e rezam muito, para tomarem a decisão mais acertada e Deus não lhes faltou com a sua ajuda mas fê-lo pela boca de uma mulher muçulmana daquela aldeia. Quando os monges tentam justificar junto da comunidade uma eventual saída, dizendo que eles, os aldeões, eram os ramos e os monges apenas as aves e que as aves podem fugir mas os ramos permanecerão e outras aves ali irão poisar. Parecia um argumento irrebatível, mas a resposta da aldeã foi definitivamente esclarecedora – Os ramos são vocês e nós é que somos as aves. Se os ramos desaparecerem onde iremos nós poisar?
De repente fez-se luz na mente e no coração daqueles frades que decidiram ficar, mesmo sabendo qual acabaria por ser o seu destino. Mais tarde, unidos, é com a felicidade estampada no rosto que brindam ao martírio iminente com duas garrafas de vinho que, inesperadamente, o irmão Luc, o médico, coloca sobre a mesa e que os monges saboreiam lentamente ao som da música do “ Lago dos Cisnes”. É acompanhado pelos acordes da fantástica música de Tchaikovski que o realizador foca, uma a uma, a expressão de cada um daqueles monges, felizes com a opção que tomaram. São imagens comoventes de uma beleza indescritível. São as imagens da serenidade e do heroismo. .
O que era inevitável acabou por acontecer, os monges foram raptados, tomados como reféns e acabaram assassinados em condições misteriosas que ainda hoje não foram esclarecidas.
“Dos Homens e dos Deuses”, uma história verdadeira, uma lição de vida, um exemplo de coragem e de entrega ao serviço de Deus e do próximo. UMA EXTRAORDINÁRIA ODE À FÉ.
Guilherme Duarte
Publicado no número de Janº 2011 do jornal Cruz Alta
http://www.paroquias-sintra.net/


2 comentários:
Querido amigo; tentei lhe enviar uma mensagem de FELIZ ANO NOVO, mas não tinha seu e-mail e quero desejar que 2011 seja de muita paz, saúde e realizações!
Sobre o filme, por aqui ainda não ouvi falar. Mas segundo suas informações deve ser bom mesmo.
Beijos
Querido Gui; por favor quando puder dê notícias, viu?
Boa semana! Beijos
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